sábado, 9 de janeiro de 2010

Òvini uma ova

Era um dia qualquer no aeroporto da Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso do Goiás.  Um aeroporto para aviões pequenos e, claro, óvnis. Era essa a busca; estabelecer contato com o desconhecido.

Falando assim parece até que o grupo em questão formava alguma equipe de ufólogos profissionais supercorajosos que estavam ali enfrentando apenas mais um dos infindáveis perigos do cosmo rebelde, enquanto na verdade eram apenas um bando de quase-religiosos quase-pós-adolescentes completamente despudorados recorrendo ao entorpecimento progressivo como catalisador da comunicação entre o homem, o além e o moleque inconseqüente que acha que tudo que é diferente do que ele já conhece é merecedor de uma atenção ainda mais especial do que aquilo que o rodeia... E mal sabiam que estavam certos.

Pois bem, era um dia qualquer. Na verdade, só viajavam em dias quaisquer. Estes dias, os quaisquer, eram tidos como especiais por abrigarem a magia do acaso - se tudo pode acontecer a qualquer momento aproveitemos cada um deles como se fosse o único. Ciente do grosso clichê em que me meti, argumento que o fiz só pra enfatizar que tal afirmação, quando levada ao pé de sua letra, empreenderá em conseqüências incomensuráveis. Tem gente que não saiu de lá até hoje, outros estão voltando a pé, no estilo profissão maluco, sem contar os abduzidos naquele mesmo dia. O fato era que o grupo se mantinha com a lisergia em alta, numa roda muito grande, aonde a fumaça chegava a obscurecer o brilho do sol que estava pelejando em nascer numa noite que teimava em continuar.

Nesta plaga eterna enquanto durou, dormia Tompsom, um dos queridões da turma famoso por apagar antes dos demais. É bem verdade. Seu apelido vem deste dom, deste somado a um outro. Tompsom caía primeiro mas também tocava lindamente seu violão. Desta forma, seu codinome se fazia então da justaposição da onomatopéia correspondente à queda pioneira com som. E além do caso de sua nomeação, Tompsom protagonizava outras histórias ainda mais estimulantes aos neurônios crus, como a que segue:

Certa vez, ele, numa roda de amigos, quando estava prestes a ingerir um pouco daquela mesma fumaça, só que desta vez inalada pelo nariz, de forma a sugar agressivamente o sopro carregado de seu predecessor, Tompsom se fez ouvir em desmoronamento: sempre que eu faço isso eu apa... – pluffs, o que se via era um corpo estirado e disforme se adaptando às curvas do solo - minutos depois ele acorda, em meio a gargalhada uníssona e acolhedora de seus partidários que nem se assustaram. Isso por que era já muito conhecida a capacidade do companheiro, além do que a despreocupação marcava a personalidade daquela rapaziada. Não foi nada, um desmaio à toa.

Sim, mas já era quase dia e Tompsom estava apagado como de costume em seu carro, no meio do aeroporto, obstruindo a passagem de qualquer objeto voador, identificável ou não, que tentasse o pouso. Até porque, naquela altura do campeonato, nada mais poderia ser confiavelmente identificável. O céu se firmava num roxo diferente..., diferente é ótimo, ele estava abusivamente outro e sua tridimensionalidade levava os heróis a alcançar as nuvens, seja pela elasticidade surpreendente de seus membros ou pela simples descida do firmamento às suas cabecinhas preenchidas de sabedoria provisória, e isso parecia muito engraçado – os abdominais travados quase se assemelhavam aos da oposição marombeira, em função da condição constante de maxilar em riste.

Por que será que a impressão da obtenção da solução geral dura o quanto duram os momentos como esses? Bem... Pelo menos o sentimento proveniente da crença na compreensão dos pormenores universais permanece, e é o que muito suspeitosamente os estimula a continuar com a festa.

Fanfarra mantida, simbiose absoluta, clorofila e ferormônios... Eis que surge, vindo de cima, e ser algum ali presente jamais conseguiria apontar a direção, mas era certo, depois de um tempo deu pra entender que algo realmente vinha, e que não só um sujeito o via, até por que já chegava a hora de entender que o que vinha queria pousar. Ninguém lembra sinceramente se o objeto deu farol alto ou berrou a buzina, sabe-se só do desespero que tomou a todos quando perceberam que o queridão “já fui” perdia a conta dos carneirinhos há um bom tempo naquele mesmo veículo que barrava a descida do teco-teco. Hoje já dizem que era um teco-teco. Sim, o susto desperta. Nunca parou numa blitz? Só que blitzes nunca afetaram Tompsom, que nem mesmo remexido pelos guardas despertava nem que fosse pra dizer olá a seus interrogadores. E essa é só mais uma das histórias do dorminhoco.

Contam da vez que voltavam de uma festa, ele, apagado no banco de trás, Calisto, um negão de 2m ao volante e Pampulha no passageiro. Os três foram parados no meio do eixinho norte porque circulavam em velocidade suspeita - uns trinta e poucos quilômetros por hora - completamente em transe retornando de uma festa à fantasia.

Dos trajes: o pessoal não costumava se caracterizar muito especialmente para esse tipo de evento, mas ao usar de um óculos de armação preta sem lentes e um terno amarrotado Calisto acreditava estar fantasiado de advogado. Envolto num varal de supermercado com algumas cuecas e calcinhas presos por pregadores somados a um nariz de palhaço devidamente posicionado, Pampulha era o varal-palhaço. Sumido precocemente da festa, ninguém consegue lembrar a fantasia de Tompsom, além do que, seus quase-companheiros de cela nem imaginavam qual era idéia de seu amigo, mas também não importava, artista não tem que ficar se explicando.

Os PMs pediram que Calisto saísse do veículo com as mãos pra cima – imagina uma lapa de negão, com os braços pra cima, com os óculos dispostos do nariz à testa já todo amassado – os policiais se afastaram, mas imediatamente, ao perceber a confusão da lei, Calisto abriu seu vasto sorriso, que infelizmente não pode ser acompanhado por seus olhos, que só não pesavam mais que o conjunto de sua cabeça, denotando o gigante inofensivo que se erguia pra fora do veículo.

Ao Pampulha foi solicitado que mostrasse as mãos, e logo que viu o guarda mais novo as cheirando, o varal deixou escapar aquele seu risinho lateral bêbado-cínico – é que antes da festa resolvera preparar um macarrãozinho pra galera carregado na cebola, o guarda pareceu não gostar do aroma.

E que balançaram Tompsom, chacoalharam o sujeito e quando estavam quase pra rasgar suas vestes de tanto o remexer ordenaram que Calisto e Pampulha endireitassem o corpo morto. Não é difícil imaginar as caras de diversão dos policiais que assistiram ao grande advogado cego acompanhado do varal-palhaço em pleno cambaleamento e discordância motora tentando reerguer o cidadão indefinido capotado na traseira do veículo. Resultado; os três pra casa imediatamente – depois da performance os artistas foram liberados sob a  sinfonia de aplausos e assobios da polícia brasiliense - os PMs deviam ser artistas também.

O avião, mas sim, o avião. É, quem não deve não treme. Tompsom não tremia e também não esboçava a menor reação perante os gritos dos amigos. Calisto, que também fazia parte daquele grupo de meditação ativa, tomou de sua força, empurrou o corpo adaptado às duas poltronas dianteiras, soltou o freio de mão, agarrou o volante e gritou por ajuda, dito e feito, em alguns segundos todo o time manicomial se pos a empurrar o veículo para fora da pista de pouso.  A lembrança dos presentes no faz parecer que a asa do avião chegou a tocar a antena do carro que nem eram dessas que sobem como barbatanas. Mas não é que o monstro espacial pousou e de sua carcaça assustadora saltou um estranho ser de óculos de sol. A criatura, num linguajar quase compreensível deu a entender, e inacreditavelmente todos entenderam, que queria compartilhar do cigarro, por que numa manhã de domingo como aquela um bom cigarro faria um par perfeito com a espaçonave, o céu estava puro, o sol irradiava a paz da região – dito isso, tapas depois, o sujeito, que agora já era um sujeito, voltou para o avião, agora também já era avião, e saiu voando de volta ao seu curso original.

Os lunáticos, aliás, os solásticos, seguiram a manhã na sua plena normalidade, como quem não tivesse saído ainda da noite. A consciência disfarçadamente equilibrada os munia de auto-confiança e de uma sensação de dever cumprido pertinente apenas ao devoto que, após uma noite plena de orações, alvorece finalmente sentindo-se apto a compreender a relação intrigante entre a linda borboleta azul que paira do outro lado do mundo com a gota serena que foge do alto fluxo da grande queda do Veadeiros. De opinião questionável e memória risível, aqueles membros da seita orgásmica do apocalipse prazeroso deixaram crer que tudo poderia ter acontecido, até mesmo para Tompsom, que recordava de uma noite repleta de emoções, por mais que seu universo onírico o tenha recebido tão precocemente. 

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